Um batom, a menina e a auto-estima

"... Eu queria ter nascido com cabelo liso..."


Passei muitos anos da minha vida querendo ser alguém que eu não era, até que um dia eu resolvi mudar e me aceitar na forma que Deus me criou

"Você é desleixada", "seu cabelo é muito cheio", "sua sobrancelha parece uma taturana", "engordou demais nos últimos meses!", "o que aconteceu com seu cabelo, parece um ninho de passarinho", "nega maluca", "que roupa é essa?", "não sabe se maquiar"...
E por aí vai...
Você se cansou de ler estas coisas? Bom, você tem a opção de não ler... Depende de você, você que decide. Mas e eu? Será que tenho a opção de não ouvir? Neste caso não depende de mim... Eu não posso fazer com que a sociedade não dirija essas ofensas a mim.
Esse não é um problema apenas meu, eu sei, e existe uma grande probabilidade de você também me dizer que todos os dias ouve coisas assim, e é sobre isso que eu quero falar hoje.
Essas frases que eu coloquei acima fora que ouvi toda minha infância e adolescência. E eu não conseguia medir a intensidade em que isso me afetava. E você pode pensar que estou falando de pessoas distantes, mas o triste é que não é. A maior decepção é que sempre era alguém que eu considerava. E eu ficava pensando ás vezes até que tudo que eu ouvia era verdade. "Eu não queria ter nascido assim" Eu carregava todos os dias um espelho na minha mochila pra escola, mas eu não tinha coragem de olhar o espelho na frente das pessoas, porque eu sabia o que elas estavam pensando de mim, eu sabia que estavam me achando feia. Eu carregava também um batom, e todas meninas pediam emprestado tanto o batom quanto o espelho, no entanto eu mesma não usava. E tem aqueles momentos que as moças se juntam para arrumar e era o momento mais dolorido. Todas eram lindas, e eu era a feia. Elas passavam a mão para ajeitar o cabelo e comigo era diferente, por mais que eu tentasse nunca me sentia bem, enchia o cabelo de creme e escovava o máximo possível para ver se alisava, mas algumas horas depois ele já estava alto e os comentários maldosos começavam. "Como eu queria ter nascido com o cabelo liso" eu sabia que minha vida seria muito mais fácil se meu cabelo fosse liso, e sem perceber eu fui me retraindo, me afastando, e o que eu sei do meus tempos de escola é que eu fui uma pessoa tímida, fiz poucas amizades, e me sentia inferior.
E um dia apareceu a solução que aparentemente era perfeita: o alisamento.
O relaxamento naquela época estava bombando, todo mundo conhecia alguém que tinha o cabelo cacheado e relaxou e nossa ficou maravilhoso! E realmente a prancha ficava muito mais fácil e não ficava aquela raiz alta e crespa. Era tão simples, só ir no salão e alisar. E todos os problemas estariam resolvidos. Será?
"Redutor de volume" era assim que era chamado o relaxamento, e eu, uma criança de 10 anos que não sabia nada sobre química estava ansiosa para realizar meu sonho de ter cabelos lisos, e assim nunca mais ouvir tantas críticas sobre meu cabelo. E no dia que eu fiz meu primeiro alisamento eu me olhei no espelho e me senti tão linda como eu nunca havia sentido antes. E os elogios não paravam, todos diziam quanto que ficou melhor assim! E nossa, como eu estava feliz e satisfeita!
Nos primeiros meses de relaxamento ficava bonito o resultado

E nos primeiros meses fora só alegria, lembro-me que foi uma época que eu tirei muitas fotos, coisa que eu não fazia antes. E com o passar do tempo os problemas começaram a vir. O que eu não sabia sobre o relaxamento é que eu seria escrava dele. E sabe, ardia muito, muito mesmo! E após o procedimento minha cabeça ficava cheia de feridas. E meu cabelo foi se tornando cada vez mais fraco, e quebrava muito as pontas, o que me fazia sempre ficar cortando para não ter aquelas pontas espigadas. Eu tinha vergonha de ficar nos lugares na frente, da escola ou da igreja, porque meu cabelo ficava  caindo na minhas costas e eu não conseguia enxergar , (lógico) só ia ver depois na hora de tirar a blusa. 
Eu não me sentia segura em deixar meu cabelo secar sem prancha na frente das pessoas, então quando tinha sítio eu preferia não nadar para não estragar a prancha da semana.
Os tempos de chuva eram meus inimigos, e o calor também. Nem sei medir qual era o pior. No  calor era horrível ter que ficar horas debaixo de secador e de chapinha, e no final eu estava toda suada, e o suor acabava estragando a prancha, e coisas que são simples na vida, tudo tinha que ser feito com preocupação para não estragar o cabelo. Tomar banho, dá-lhe toca. Dormir, andar, fazer qualquer coisa morrendo de preocupação para não suar.
Mesmo fazendo tanto esforço não consegui me livrar do volume, a raiz ficava baixa apenas no dia do relaxamento, depois... Voltava a me atormentar. E foi assim que eu comecei a fugir de fotos. E os eventos como casamentos e festas de aniversário, eu só me sentia bem se a raiz não estivesse alta. Mas ela sempre estava.
Raiz sempre assim :( Foto de 2012 quando eu estava completamente viciada na prancha

Os anos foram se passando, e eu cada vez mais insatisfeita com minha aparência. E relaxar o cabelo não fez com que as pessoas parassem de me criticar e eu tinha certeza de que tudo que me diziam era verdade. E um dia eu estava em mais um dia chato de passar o salon line. E dai a cabeleireira me falou que havia muito tempo que ela não passava relaxamento em ninguém, que estava ficando fora de moda e ultrapassado, e que agora as mulheres usam progressiva. Eu não trabalhava e eu sabia que eu não teria dinheiro para fazer progressiva de três em três meses, porque até o relaxamento tinha que ser atrasado por conta do dinheiro, e eu fiquei muito triste porque neste momento eu me dei conta que eu me tornei escrava. Eu me senti ridícula por não poder parar de fazer aquilo, e eu fiquei pensando que as outras meninas não precisavam fazer isso e eu precisava. Mas será mesmo que eu precisava? Pensamentos ridículos tomaram conta de mim.  Mal eu sabia que um dia eu ia agradecer por ter pensado assim. "E se as mulheres não comprarem mais guanidina e a indústria do relaxamento quebrar?" Eu juro que pensei isso. E sentada naquela mesma cadeira que eu fiz meu primeiro alisamento eu decidi que eu nunca mais faria aquilo novamente.
Como seria dali em diante? Eu não sabia. Eu não conhecia uma referência sequer de alguém  que parou de alisar e conseguiu recuperar o seu cabelo natural. Na verdade eu nem sabia que tinha jeito, e nesses 7 anos de alisamento eu nunca consegui cogitar em parar. E foi assim, parei de repente. Eu não sabia mesmo o que eu faria. Eu imaginava que sempre ficaria aquela palha esquisita e eu pensei "se é pra ficar feio, que fique, não vai fazer diferença, já está horrível agora e não há nada que eu possa fazer para ficar bonito, então que fique feio sem eu precisar relaxar". E aqueles meses iniciais foram os piores. Eu participava de um grupo teatral e para apresentar as meninas tinham que usam uma trança embutida. E eu quase chorava nesta hora, porque todas as meninas faziam e ficava lindo e eu meu ficava horroroso, e eu via as pessoas apontarem para mim e rir e fazer comentários maldosos. E confesso que muitas vezes eu chorei.
Na minha formatura do ensino médio eu estava desanimada, porque na última formatura do ensino fundamental meu cabelo ficou horrível porque choveu e ficou alto e frizado. E foi a mesma coisa, dezembro de muita chuva e eu sabia que a história ia repetir. Eram 9 meses sem relaxar o cabelo, e até então usava apenas preso, e então fui procurar um salão para ver o que dava para fazer no dia da minha formatura. O problema é que devido as constantes mudanças de cidade, era difícil encontrar salão que eu pudesse confiar. E para saber qual era o bom, tinha que ir me decepcionar nos ruins.
Entrei em um salão e perguntei o cabeleireira o que ela poderia fazer no meu cabelo para minha formatura, já que eu decidi parar de relaxar. Eu disse a ela que queria fazer um penteado, tudo de menos alisar. Ela ignorou tudo que eu falei, e a primeira coisa que disse foi: "porque você não relaxa esse cabelo?" aquilo me deixou muito triste, mas fazia parte da minha vida essa pressão então eu permiti que ela me dissesse isso, permiti porque já estava cansada demais de tudo. Não relaxei, mas deixei que ela arrumasse meu cabelo para a formatura. 
E foi mais ou menos nessa época que eu entendi o que estava acontecendo comigo, que eu estava numa coisa chamada transição, e que aquele sofrimento tinha data pra acabar. E isso me deu esperanças. Comecei a pesquisar sobre esse assunto e descobri várias meninas que também estavam passando pela mesma coisa que eu. E descobri que dava sim para recuperar meus cachinhos, era só cuidar do cabelo e cortar toda parte alisada. E assim eu conheci vários canais legais, como o da Rayza Nicácio, da Ny Macedo, Mari Beleza Pura... Enfim.... Estava muito empolgada com tudo, mas infelizmente tudo que eu fazia não dava resultado, eu fazia hidratações e hidratações e meu cabelo não respondia, e eu conclui que não ia ficar bom, e que eu era diferente de todas as meninas que eu via no YouTube. E começou mais uma época de insatisfação com meu cabelo. E para piorar, depois que me formei, eu fiquei sem emprego e sem estudar, meu relacionamento de dois anos acabou, e eu estava péssima.
Olha o ponto que meu cabelo chegou!
Mas mesmo assim eu não voltei alisar, em dados momentos eu achei que não ia aguentar mais e cheguei até ligar para marcar no salão, mas não tinha horário para o dia que eu queria (graças a Deus!). No fundo eu sabia que não resolveria alisar, então fui levando. Os piores momentos eram os eventos que eu tinha de participar, eu só queria me esconder, eu não conseguia me sentir confiante.

Depois de 14 meses de transição eu fui dar um corte no cabelo para acertar, porque durante o tempo que fiquei sem ir no salão, eu mesma pegava a tesoura e cortava as pontas, e dai a cabeleireira foi super atenciosa comigo, eu fui lá por indicação de uma amiga. Eu cheguei com a conta certinha de tirar as pontas e ela acabou escovando e tirando as pontas pra mim. Quando ela terminou, eu me senti linda novamente. Eu olhei no espelho e chorei, e desta vez foi de alegria. E sabe o que mais me marcou? Pela primeira vez na minha vida eu senti falta de um batom. Eu olhei na minha bolsa procurando um e não achei, e eu falei "Ivone, agora que estou bonita preciso de um batom!" Eu a agradeci muito porque a muito tempo eu não entrava em salão porque sempre as cabeleireiras queriam passar química em cima de química para facilitar o trabalho delas. A Ivone foi pelo caminho mais difícil. Ela me sugeriu um tratamento, e me disse que ia demorar os resultados, mas valia a pena, eu achei caro mas como eu já havia conquistado um emprego, pensei: "não custa tentar..." eu já conhecia minha amiga que tinha tratado lá e recuperado de um corte químico, e assim eu comecei. E no primeiro dia já vi os resultados. E assim fiquei dois meses tratando lá com nutrições, hidratações, queratinizações...  Ela me deu muito incentivo para eu poder usar meu cabelo natural.
Dias antes de eu fazer o big chop pensei em continuar pranchando mas sem alisar, os elogios foram muitos mas eu sentia a falta da liberdade de usar meu cabelo como eu quisesse, quase me tornei escrava do liso novamente.

E com mais ou menos 18 meses de transição eu cortei meu cabelo, e me senti tão renovada, eu mal podia acreditar que aquela menina do espelho era mesmo eu, eu estava me sentindo linda, e dessa vez era um sentimento mais forte, porque se eu lavasse meu cabelo eu continuaria me sentindo linda mesmo que ele estivesse sem prancha. Eu me senti livre por não precisar mais da química e era ótima aquela sensação. E eu finalmente agradeci tanto a Deus por ter me feito daquele jeito, e eu já não queria mais ter nascido de outra forma. Eu queria ter nascido exatamente daquele jeito que Deus me criou.
Eu havia comprado um batom vermelho e nunca havia usado, e naquele dia eu usei este batom, e ele não parecia mais ridículo em minha boca. E eu me senti abençoada.
Dia do Big Chop

Sabe, um dia antes de eu ir naquele salão eu havia orado a Deus sobre meu cabelo. Eu disse para Deus o que eu estava sentindo e eu tive fé que ele poderia me ajudar... Passei as semanas seguintes ao big chop chorando várias vezes de alegria e gratidão.
E nessas semanas eu ouvi muitas coisas inconvenientes também, mas elas já não me afetavam, porque eu estava segura e confiante. As pessoas não mudaram e elas continuarão a dizer banalidades, quem mudou foi eu. Mas eu não me importava.
Primeiras semanas pós big chop 

Agora tudo mudou. Eu sou livre. Isso é maravilhoso. Gosto de chuva, eu posso me molhar e posso suar acreditam? Festas repentinas? Me dê quinze minutos, só vou ajeitar o cabelo! Desta vez não preciso passar o dia inteiro no salão, se eu demoro me arrumar e porque amo me maquiar e estar linda!
Curtindo meu novo visual

Eu agradeço a Deus e a todas pessoas que me incentivaram, a todos que não me ofenderam em nenhum momento. E mesmo aqueles que ofenderam eu perdoo estas pessoas.

A menina que era insegura agora tem um batom na boca e auto-estima.

Dani Fernandes

Dani Fernandes, 18 anos, mineira, blogueira e escritora de Margaridas, Lírios e Mariana.

11 comentários:

  1. Fooooofa, você fica MIL VEZES MELHOR COM CABELO ENROLADO. Quem me me vê de primeira não sabe que o meu cabelo natural é enrolado, e estou tentando voltar ao natural, mas é difícil. Estou há um ano e 6 meses quase sem progressiva, e tenho uns 5 dedos do cabelo ondulado, o resto é LISO. FIco hidratando e cortando as pontas.
    Já pensei em desistir mil vezes, quase marquei por cansaço. Porque arrumar ele NÃO É FÁCIL. Mas eu não desisto, quero meu ondulado/enrolado de volta.

    Beijos, Love is Colorful

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O importante é não deixar que uma sociedade preconceituosa impedir que você use seu cabelo da forma que você gosta.. Boa sorte na sua transição! Obrigada pela visita!! :D

      Excluir
  2. que post lindo ❤
    Eu antes era refém da chapinha! Tudo bem que eu não tinha um cabelo cacheado LINDO igual ao seu, mas meu cabelo é ondulado e antes não saía com ele natural por nada nesse mundo!
    Hoje em dia desapeguei e até prefiro ele assim, com suas ondinhas ❤
    Beijihos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oii Helo que bom que se encontrou... Toda vez que leio este post eu choro de alegria por ver o quanto eu sofri atoa. Ser livre é bem melhor, né!? Bjs

      Excluir
  3. Dani , você é linda de qualquer jeito, mais nada melhor que o "jeito" lindo, ser o jeito que você goste.Bjs.

    ResponderExcluir
  4. Linda,linda e linda!!!
    Minhas sobrinhas também demoraram a se aceitarem...
    Parabéns pela perseverança.
    Bjs

    ResponderExcluir
  5. Sue cabelo ficou mil vezes mais lindo cacheado , bjão lindona!

    ResponderExcluir
  6. Seu cabelo é maravilhoso natural, nunca deixe que ninguém te diga ao contrário <3
    Amei o post, além do desabafo, é algo que da coragem para outras meninas fazerem o mesmo *-*

    Xoxo:*
    www.isabelamingues.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei na minha infância, valeu por comentar ^^

      Excluir

Regras de Comentário:
Deixe apenas o link, não precisa falar para eu te visitar pois eu já faço isso com todos que comentam
Divulgação nos meus post serão apagados tem um espaço para isso, vai lá em Sobre Dani..
Acompanhe meu blog porque gostas, isso não é uma troca!